
ele desapareceu. e eu não estranhei. o quanto desejei a sua morte. eu o dilacerava em estilhaços apodrecidos. elaborava
estratégias cruentas. sua voz me ensurdecia. seu rosto sujo e entranhado me enojava. sua
possível presença em mim me torturava.
não fez portanto mais que a
obrigação tantas vezes negligenciada com
paixão doentia.
e eu que achei que o havia matado, aliviada. dia desses (hoje) ele tomou a liberdade de me ser
útil.
não que eu precisasse. apenas por
ignorância o permiti.
ele, esbaforido. olhos vermelhos.
pés repletos de calos. cascas opacas ao seu redor. distância e
impaciência exalando.
cada passo seu e me repele. eu desejo que se cale. desejo que se mastigue. que vire vomito longe daqui. desejo
tão sonhado.
ânsia de dor finita.
subitamente descubro que por rapidez (falta de preparo?) construo uma estrutura de vidro. (poderia ser outra?).
prédio alto. vazio e abrangente.
límpido e de vidro. circundado por grama. onde posso entrar se quiser. eu quero. dentro é
aconchegante e frio. paisagem escura
refletindo pontinhos de estrelas.
olho dentro de uma das janelas. procuro algo. quero, pego-o. o
prédio em minhas
mãos. todo liso, formas contínuas e
retas. talvez se eu fosse vidro. talvez eu gostasse.
e os gritos saem da terra ansiosos.
atrás de mim. cores infantis. correria. o
prédio balança.
me protejo endurecendo o
céu.
ninguém me
vê.
lampejos e fios de cabelo. estou na minha cama e o
lençol me prende. eu emaranhada encostada no
teto. muita água e eu reboco de parede. e eu presa num banheiro cheio de ecos.
respiro fundo. os olhos tateiam o escuro. expiro. os seres amorfos por enquanto desistem.
mas infelizmente ainda
ouço o ronco da sala. até amanhã ele ainda ali acorda.
depois de amanhã, nunca mais o deixo voltar.